É engraçado, eu – socialista convicto – achava que a burguesia não se preocupava mais com esquerda (ainda mais depois do Lula se transformar no maior social democrata do país) socialismo, movimentos sociais, greves e uma série de outras coisas subversivas, que isso era coisa do passado e que o fim da história chegou mais rápido do que ela mesmo pensava. Mas ao ver como a mídia tem tratado a Turma do Chávez, tenho a impressão de que a revolução está logo ali na esquina e ninguém me avisou. SACANAGEM. Da próxima vez, avisa, que eu vou correndo.
A revista Veja (que mentira) - semanário oficial da burguesia raivosa - de 5 de dezembro publica uma matéria relacionada a turbulência política na América latina com o sugestivo título de “Os destruidores de Países”. Não soubesse eu que estava lendo a Veja (que mentira), pensaria que estavam falando de Lula, Álvaro Uribe, ou sobretudo Michelle Bachelet. O subtítulo é tão interessante quanto o título: “Como fez Chávez na Venezuela, os presidentes da Bolívia e do Equador rompem a coesão social e arruínam a economia na busca de mais poder”.
Interessante ver como são tratados os presidentes que ousaram romper com um modelo político e econômico que durante séculos levou os países que governam a total miséria. Também é interessante ver a distinção com que são tratados de um lado, Chávez, Morales e Rafael Garcia e de outro, um grupo, formado por Lula (Brasil), Álvaro Uribe (Colômbia), Tabaré Vazquez (Uruguai) e Michelle Bachelet (Chile). Os 3 primeiros representam, sob os olhos dos intelectuais orgânicos da burguesia, a velha esquerda, a esquerda atrasada, radical, que constrói uma revolução que ficou presa em 1917. Já os últimos, representam uma nova esquerda, responsável, que respeita contratos, que seguem corretamente os caminhos ditados pelos órgãos multilaterais, que prezam pelas boas relações com países desenvolvidos.
Por trás desse discurso de Nova esquerda e Velha esquerda, colocado na ordem do dia pelos representantes das elites, está o medo de um deslocamento do eixo de poder. O que está acontecendo é que os privilégios que historicamente eram pra poucos, hoje está se acabando.. Vale lembrar, por exemplo que antes de Chávez ser eleito, os lucros da PDVSA – a Petrobrás da Venezuela – eram divididos entre seus donos, e hoje, vão parar nas mãos do Estado que os reverte em políticas públicas.
A matéria continua de forma infame e incrivelmente contraditória: “ Ao mesmo tempo que abusam dos mecanismos da democracia para destruir o estado de direito, alimentam a instabilidade política que pode destituí-los. O desmanche das instituições democráticas, a condução ideologizada da economia e a promoção do ódio a quem discorda do governo empurram a sociedade para a beira do precipício”.
Aqui vale alguns comentários. Aos olhos da burguesia, podemos entender que:
1) Abusar de mecanismos de democracia (como plebiscitos e referendos) é antidemocrático e destrói o Estado de direito (o mesmo que permite a realização de referendos e plebiscitos).
2) A oposição a Chávez decide não disputar a eleição e a culpa pelo suposto desmanche das instituições democráticas é obviamente de quem, hein, hein??? Chávez é claro
3) Fazer com que os conselhos populares, no qual a população participa de forma direta das tomadas de decisões do país , sejam reconhecidos legitimamente pelo Estado é antidemocrático. (Democrático é votar de quatro em quatro anos e voltar pra casa. Afinal, participar cotidianamente da política pra que?)
4) Só a economia promovida pela velha esquerda é ideologizada, a economia conduzida pela burguesia não é. Transcrevo as palavras de Gunnar Myrdal, economista mais do que burguês, ganhador do prêmio Nobel de Economia em 1974: “Uma ciência social desinteressada constitui um puro contra-senso. Tal ciência jamais existiu e jamais existirá” (Myrdal, 1965:1904)
A coesão social, que a “velha esquerda” vem rompendo é no máximo a coesão dos acordos dos grandes empresários. Afinal, coesão social na qual a população pobre é diariamente reprimida pelos aparatos de Estado não é o que podemos chamar exatamente de coesão social, possivelmente, coerção social seria uma expressão mais apropriada.
Como comunista convicto,penso que, infelizmente, a revolução não está na ordem do dia, mas que o Chávez e sua turma estão deixando uma galera sem dormir direito, isso estão. Os Civita que o digam.